Um brasileiro refém da mesmice

Pense num trabalhador brasileiro que vive na periferia de uma grande metrópole. Seu nome pode ser João, a cidade pode ser São Paulo. Ele sai de casa antes do amanhecer e volta somente ao anoitecer. Das mais de 12 horas que passa fora de casa, são cerca de duas para ir e mais duas para voltar do trabalho.

Parte do caminho ele faz a pé, depois pega um ônibus, o metrô e outro ônibus para chegar à fábrica em que trabalha. À noite, quando volta para casa, João, muito cansado, precisa dar atenção à mulher e aos filhos, além de acompanhar o noticiário da TV para se informar sobre os acontecimentos do dia.

O cansaço de João ultrapassa o físico. Ele já não aguenta mais ver sempre as mesmas notícias sobre assuntos muito distantes do seu dia-a-dia. Seu salário não lhe permite ter acesso a uma programação por assinatura que lhe dê opções variadas de conteúdo. Assim, João só conta com a grade de programas da TV aberta brasileira, a cada dia mais desanimadora.

Não adianta um controle remoto cheio de botões se a programação dos canais de TV anda tão ruim. Crédito: Marquinhos/Flickr
Não adianta um controle remoto cheio de botões se a programação dos canais de TV anda tão ruim. Crédito: Marquinhos/Flickr

Aos domingos, quando João pode ficar em casa o dia todo, ele costuma ir até a banca para comprar um jornal e poder ler algumas das notícias que durante a semana consegue apenas ver pela TV. O jornal é um daqueles chamados “populares”, ou “popularescos”, que atraem especialmente o público das classes sociais mais baixas devido ao preço – menor em relação aos outros.

O destaque que o jornal dá ao futebol é o principal atrativo que leva João a comprá-lo. Mesmo assim, ele continua convivendo, ao ler essa publicação, com temas ainda muito abaixo dos que ele gostaria de encontrar. A narrativa nua e crua dos acontecimentos policiais o faz lembrar, agora sim, de fatos bem próximos do seu cotidiano: a falta de segurança pública, o descaso dos governantes com a periferia e o crescimento da violência em bairros como o bairro em que ele mora.

O bom e velho jornal já não satisfaz mais os anseios de seus leitores pelas informações. Crédito: Claudia Castro/Flickr

O bom e velho jornal já não satisfaz mais os anseios de seus leitores pelas informações. Crédito: Claudia Castro/Flickr

Se as condições financeiras de João fossem mais favoráveis, ele compraria um computador. Com a “tal da internet” – assim ele costuma dizer –, poderia buscar informações muito mais abrangentes, como reportagens que vão além de apontar e denunciar problemas.

Na visão da nossa personagem, falta à mídia promover debates esclarecedores e que sugiram soluções, a respeito de assuntos que verdadeiramente interessam ao povo, mostrando às pessoas os melhores caminhos a seguir. Afinal, o acesso da população pobre às produções consideradas “de alto nível” é extremamente limitado.

Através da internet, João poderia conhecer o blog da Revista Sem Fronteiras e, mais adiante, também a Revista Sem Fronteiras. Aqui, ele encontraria ao menos uma parte do que acredita ser importante para a própria vida.

Na editoria de Mídia em Foco, o leitor vai encontrar reflexões e críticas a indagações como as que a nossa personagem João faz em relação a como é e como deveria ser o trabalho da mídia. Tudo para que o público obtenha – além de simples relato de fatos – educação e conhecimento. Aguarde!

Mateus dos Santos – Editor de Mídia em Foco

– Interaja com a revista por meio das redes sociais (clique aqui) ou através do seu comentário.

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6 Respostas para “Um brasileiro refém da mesmice

  1. Força na caneta, amigos.

    Existem muitos Joãos e Josés e Severinos que precisam dessa renovação do cotidiano, do saber.

    Abraços

    • José Sidney,

      Os Joãos deste país merecem renovação, não é mesmo? Melhor que essa mudança venha por meio de novas ideias, do que de projetos já atuantes, só que camuflados com retoques na estética, quantidade de informação etc.

      Se seremos algo a mais, só o tempo dirá. Mas, este é o nosso desejo e trabalhamos dia após dia para que ele se realize plenamente.

      Abraço.
      Lucas Fernandes.
      Economia, Educação, Painel e Política.

  2. O conteúdo dos canais abertos e da mídia tradicional cada vez nos leva a um desânimo maior para encarar esta dura realidade.

    Ah, triste realidade.

    Abraço

    • Geraldo, o conteúdo da grande mídia segue o que chamamos de “agenda setting”, o que faz com que os veículos sejam repetitivos, mudando tão somente a aparência. Pretendemos ir além dessa agenda e usar do estilo para nos diferenciarmos das demais mídias. Espero que consigamos. E contamos com suas opiniões, visitas e sugestões para que nos aproximemos deste objetivo.

      Abraço.
      Lucas Fernandes.
      Economia, Educação, Painel e Política.

  3. Sem dúvida a internet ainda não está ao alcance de todos. As populações mais pobres têm sempre menos opções de tudo (lazer, educação, qualidade de vida, etc) e com a informação não é diferente. Jornais com linguagem e conteúdo popular são sempre vendidos, mas o dia em que a internet for acessível a todos, com certeza as classes mais pobres poderão ter um progresso em suas vidas. Abraços.

    • Que a internet realmente possa, Guilherme, estar acessível a todos um dia. Esse progresso de que você fala será enorme quando isso acontecer. Com a internet, não há como reclamar de falta de opções de conteúdos inteligentes e relevantes para toda a família.

      Até mais.

      Mateus dos Santos – Editor de Mídia em Foco

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