Cultura: no mercado mais próximo de você

O que é o Vale-Cultura na sua ótica, caro leitor? Segundo o Ministério da Cultura é a primeira política pública de incentivo real ao “consumo” de produções artísticas no Brasil. Quando olhamos de primeira, imaginamos que seja mais um programa assistencialista como o “Bolsa Família”, o “Bolsa Escola”.

Dar R$50,00 mensais em um cartão magnético para uso cultural gera mais custos do que criar uma política sólida educacional que incentive hábitos culturais como leitura, ida ao teatro. Exemplo de como o vale pode ter cara de paliativo: o MinC espera incremento de mais de R$600 milhões por mês no consumo de bens culturais. Por que não incentivar o consumo de manifestações culturais mais simbólicas presentes em nosso rico folclore, por exemplo? Por que não ter como matéria-prima aulas de leitura livre para a criança descobrir o mundo das letras e, por consequência, de todas as artes faladas, como cinema, teatro, música? Um exemplo  do rumo equivocado da iniciativa governamental: o orçamento do Ministério da Educação para o ensino básico (creche, pré-escola, ensino fundamental e ensino médio) foi fechado para este ano em R$2,05 bilhões, sendo que este valor tem como alvo principal a capacitação de professores. O programa Brasil Alfabetizado e a Educação de Jovens e Adultos sofreram um corte de R$75 milhões.

Mesmo as empresas bancando parte do Vale-Cultura com 1% de isenção no imposto de renda (o trabalhador banca o restante com seu salário em até 10% ou R$5,00), o hábito de apreciar a cultura, a leitura não foi fomentado desde os primórdios da educação do adulto de hoje.  Dados do próprio MinC revelam a falta de interesse  e frequência de consumo do brasileiro por produções artísticas. Uma pequena citação do blog do Vale-Cultura sobre o hábito cultural do cidadão brasileiro: “o Vale-Cultura nasceu de estudos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostram a exclusão cultural no Brasil: apenas 14% da população brasileira vai ao cinema regularmente, 96% não frequenta museus, 93% nunca foi a uma exposição de arte e 78% nunca assistiu a um espetáculo de dança.”

A iniciativa tenta solucionar um problema de base, de criação de hábito. Imagino que irá, sim, aumentar o fluxo de pessoas que consomem cultura, porém o governo parece não pensar que está cometendo o mesmo erro da educação: dar maior ênfase ao ensino superior e quase nenhum ao básico.

Repito a pergunta do início: o que é o  Vale-Cultura, caro leitor?

Anderson Gonçalves- Cultura, Esportes, Saúde e Bem-Estar e Opinião

Anúncios

3 Respostas para “Cultura: no mercado mais próximo de você

  1. Alevi Ferreira

    Bom texto, caro Anderson. O acesso aos bens culturais não passa necessariamente pelo pagamento de uma determinada quantia. Bibliotecas, em sua grande maioria, são gratuitas. Diversas exposições também acontecem com entrada franca, assim como mostras de cinema, vídeo e exibições teatrais. Ou seja, é possível ver excelentes manifestações culturais gratuitamente. Dessa forma, não parece ser esse o problema principal. É preciso identificar os reais problemas. Um sistema de educação mais eficiente ou uma melhor distribuição dessas manifestações pelo país inteiro poderiam ajudar em um aumento substancial no consumo de cultura. O interior do Brasil quase não tem salas de teatro ou cinema! Cultura, educação e informação são questões fundamentais no atual estágio do capitalismo e deveriam ser vistos pelo governo não por meio de medidas assistencialistas, mas como projetos com resultados variados a longo prazo. Rapidamente, é isso. Abração!

  2. erickfigueiredo

    Existem no Brasil uma série de incentivos fiscais à produção cultural. Estes incentivos não são novos: vêm sendo utilizados há muito tempo.
    Se por um lado existem estes incentivos que autorizam a dedução de 3 a 6% do imposto de renda para as produtoras, é necessário que, na outra ponta, se possibilite o acesso da população menos favorecida a estas produções já que um ingresso de cinema é muito caro. Teatro nem pensar.
    Cultura não é só ensino básico regular, mas também o acesso a obras que foram criadas às custas do erário público pelos incentivos concedidos e pelas quais se cobra caro. Se é importante o apoio aos empresários na produção patrocinada pelo Ministério da Fazenda, e pelas quais as empresas patrocinadoras ainda auferem lucros, deveria também ser o apoio ao acesso do povo a estas produções culturais.
    Sem descuidar do ensino regular, é claro.

  3. É claro que cultura é importante, é fundamental, mas devemos tomar muito cuidado com o que é oferecido por aí. Há certas obras, que são enaltecidas por muitos, mas que são verdadeiras porcarias. Há montanhas de dinheiro envolvendo essas “culturas” e muitos estão comprometidos, e a maioria das pessoas, sem entender a “obra”, engole essa porcaria toda e acha que está consumindo cultura. Um abraço. Drauzio Milagres.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s