A mordaça imposta pelas empresas de comunicação

Muito se fala a respeito da interferência que blogs, Twitter e outras redes sociais têm causado sobre a grande imprensa. Seja trazendo à tona assuntos que são incorporados pela mídia em suas pautas, seja “furando” a própria mídia – cobrindo acontecimentos antes mesmo de os jornalistas chegarem ao local do fato. Na semana passada, a discussão sobre essa interferência causada pelas novas mídias começou a afetar diretamente os jornalistas empregados pelos maiores veículos de comunicação do Brasil.

Primeiro, a Folha de São Paulo anunciou algumas regras a serem seguidas por seus jornalistas e colunistas no uso de blogs e do Twitter. Depois foi a vez de a Rede Globo fazer o mesmo com seus artistas, jornalistas e outros profissionais da emissora.

O maior jornal do país recomenda que seus profissionais não assumam opiniões partidárias, apoio a candidatos e campanhas, muito menos que publiquem conteúdo exclusivo. Neste último caso, a saída seria divulgar o link do material exclusivo, que só poderia ser acessado, no site, por assinantes do jornal. A medida, até aqui, parece correta, afinal a credibilidade, tanto do jornalista quanto do veículo em que trabalha, poderia ficar abalada caso um repórter de política manifestasse, em seu blog, apoio descarado a um candidato e sua campanha.

O grande problema, acredito, é um jornalista que trabalha para a Folha não poder opinar sobre uma notícia que escreveu e já foi publicada. Será que depois de, teoricamente, ter ouvido todos os lados da história, apurado e checado as informações recebidas, o repórter não pode, em seu blog e Twitter pessoais, manifestar seu julgamento a respeito do que leu, viu, ouviu e escreveu?

A Rede Globo também passou a proibir a divulgação de informações, comentários e conteúdos obtidos em virtude do relacionamento do funcionário com a emissora. Só por meio de autorização formal será possível fazer isso. A hospedagem de blogs em portais ou outros sites que não os ligados às Organizações Globo também só poderá ocorrer desde que expressamente permitida pela empresa.

O comunicado diz ainda que “a presença individual e particular dos nossos contratados deve se restringir, se desejada, exatamente a este universo [o uso pessoal das redes sociais], estando totalmente desvinculada da atuação na Rede Globo, nem tampouco associados a outros veículos de comunicação. Se essa separação clara não puder ser estabelecida, o uso dessas mídias fica inviabilizado”.

Proteger conteúdos e preservar princípios e valores consolidados é o objetivo que move e continuará a mover essas e outras empresas de comunicação, conforme elas forem enxergando os perigos que as novas redes sociais poderão causar à sua imagem perante a concorrência. De fato, se um jornalista de um grupo anuncia com antecedência algum conteúdo que produziu, a concorrência não vai pensar duas vezes antes de buscar nova abordagem para o mesmo assunto, prejudicando o trabalho do outro grupo antes que este tenha publicado o material.

E você, jornalista ou não, o que pensa sobre as atitudes tomadas pela Folha de São Paulo e pela Rede Globo quanto ao uso das redes sociais pelos seus empregados? Se trabalhasse para alguma dessas empresas, você se enquadraria facilmente nas novas exigências dos seus patrões?

Mateus dos Santos – Editor de Mídia em Foco

– Interaja com a revista por meio das redes sociais (clique aqui) ou através do seu comentário.

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2 Respostas para “A mordaça imposta pelas empresas de comunicação

  1. Oi, Mateus!

    De certo modo, até entendo a postura desses grupos de comunicação, pois – querendo ou não, os jornalistas e comunicadores são representantes desses veículos perante a sociedade.

    Em contrapartida, pode acontecer tb o contrário: um jornalista que tem certa presença na web ou na mídia, ser contratado por um veículo, e ser censurado.

    Creio que cada caso mereça ser analisado. Além do mais, é preciso que a grande mídia faça um trabalho de educação sobre redes sociais com seus funcionários. É preciso educar, antes de mais nada.

    Abraço,

    http://cafecomnoticias.blogspot.com

    • Olá, Wander! Realmente, educação é a palavra-chave no que tange às redes sociais atualmente. Isso não só para jornalistas, mas também para outros indivíduos influentes que, vez ou outra, acabam não sabendo como se comportar corretamente perante seu público. Abraço!

      Até mais.

      Mateus dos Santos – Editor de Mídia em Foco

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