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A lógica da morte em nossas vidas

A série "A sete palmos", que ficou no ar por cinco temporadas, fala sobre a morte como um fato a mais da vida. Os protagonistas são donos de uma funerária.

A série "A sete palmos", que ficou no ar por cinco temporadas, fala sobre a morte como um fato a mais da vida. Os protagonistas são donos de uma funerária.

Sei que é uma discussão sem data para o fim, porém é algo que temos de tratar como situação de saúde: o entendimento claro do que significa a morte para nossa existência. O processo físico-emocional para aqueles que sofrem (e sofrerão) uma perda de familiares, amigos, animais de estimação, normalmente é doloroso, extenso, com uma sensação de vazio. Crenças religiosas, sociais e científicas à parte, nossa mente parece não ter habilitado algum pedaço do cérebro para aceitar que a morte é um mecanismo natural do ciclo de rotação do planeta. Garanto, caro leitor, que não é excesso de racionalidade ou filosofia vã barata. Apenas um convite a tentarmos trabalhar nossa saúde mental para, talvez, o maior stress emocional (podendo se transformar em físico)  que passamos.

As terapias de psicanalistas, psicólogos e psiquiatras elaboram estudos sobre os efeitos do momento da morte e o posterior da perda. Em pesquisa para este post, há pessoas do meio que não souberam me dizer se há algum estudo para “prevenir” uma perda. Creio que não há essa busca, porque somos criados para simplesmente ignorar por anos a fio a existência do fim da vida. Sempre são realizados estudos e trabalhos para a extensão da existência, de ser feliz, nunca triste. Ter uma “chave” mágica chamada felicidade, que nos liberta sabe-se lá de quê. Vide as pílulas da “alegria”, criadas para sempre nos deixar “super felizes” com a bela vida que temos (Prozac, Valium etc.).  Talvez de nossas próprias criações e padrões sociais mais estressantes do que uma tonelada nos ombros, ou a negação da morte.

As tentativas de compreender a relação entre o organismo biológico (o homem) e o social (convivência com o semelhante) parecem querer entender apenas os ritualismos da morte. As formas de culto, respeito,  de se desvincular do ente que se foi, poderiam ser objeto de estudos na construção de nossa identidade como ser do meio. Nos “explicar” desde cedo que é algo que irá ocorrer e vamos lidar com isso. Evitar-se-ia o aumento do número de idosos com depressão profunda após a perda do parceiro, por exemplo. Óbvio que  ficar sem alguém que amamos nunca será fácil. Porém, temos receio de tentar compreender  a lógica da morte. Não por querer evitá-la, mas por crer que seremos eternos, jovens, indestrutíveis. Queremos sempre vender essa imagem de imparcialidade total com as agruras do mundo.

É daí que surgem os verdadeiros doentes, com distúrbios emocionais cada vez maiores nas pessoas, porque elas não conseguem manter seu discurso de total imunidade à morte aliada a uma vida cheia de energia positiva artificial.

Pensemos que nossa saúde física está tão intimamente ligada à mente que esquecemos de trabalhar o básico da nossa existência: que nascemos, crescemos e morremos permeados por uma jornada de conhecimento e descobertas. Ah, esqueçam o “Filtro Solar”. Não vale a pena nos emocionar com ele. Concentremos na saúde mental coletiva, que está à beira de um ataque de nervos porque não sabe pra onde ir. Não neguemos a existência do fim. Tentemos entendê-la melhor para conseguirmos fazer do “durante” de nossas vidas algo realmente útil e menos artificial.

P.S. 1: há uma série de TV chamada “A sete palmos”, que pode ser uma boa ilustração do que tentei passar, caro leitor.

P.S. 2: me perdoem se acharam que tentei criar outra fórmula mágica.

Anderson Gonçalves – Saúde e bem-estar, Cultura, Esportes

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