Arquivo da tag: TV

Cópias e mais cópias

Notícias, Esportes, Entretenimento, Vídeos. Quem dera fosse semelhante apenas essa divisão de assuntos existente nos portais de notícias de emissoras de TV brasileiras… Mas não! As mesmas cores usadas nas manchetes para tratar dos mesmos assuntos, as mesmas seções dentro de cada uma das editorias, enfim, uma copia a outra.

Desde o último domingo, temos à disposição o R7, da Rede Record. Antes dele, a Rede Bandeirantes estreou o eBand. O primeiro de todos foi a Globo.com, do qual faz parte o G1, exclusivo para a veiculação de notícias. Em todos eles, é feita a divulgação do que é produzido em cada uma das respectivas emissoras aos quais estão ligados.

O que mais me chamou a atenção no R7 foi a parte de Entretenimento: a presença de notícias envolvendo artistas globais no portal. No dia seguinte à estreia havia lá informações sobre a final de No Limite, uma entrevista feita com o autor Aguinaldo Silva (sobre a renovação de seu contrato com a Globo até 2014) e ainda outra conversa com outra autora de novelas da Globo, Glória Perez. Depois de uma entrevista com Chico Anysio, colocaram até uma enquete perguntando aos leitores sobre a volta ou não da Escolinha do Professor Raimundo na grade global.

Não haveria como a Record falar de celebridades brasileiras em seu portal deixando de fora os contratados da emissora carioca, já que os da emissora paulista são poucos e, em sua maioria, pouco renomados também. Em tempos de maior acirramento das brigas entre as TVs pela audiência, uma precisa invadir o território da outra – no caso, através de seus portais – se quiser atrair a atenção do público internauta.

Foi-se há muito o tempo em que os telespectadores eram fiéis a um único canal de televisão, 24 horas por dia. Na internet isso não existe, pois a proposta é exatamente que o leitor conflite as informações encontradas para melhor formar sua opinião sobre os fatos. Mesmo que, através da telinha, continuemos a ver dissidências entre as emissoras, no mundo cibernético, ocultar dos leitores o que a concorrência produz, lá do outro lado do muro, parece não ser a melhor estratégia de fidelização.

Mateus dos Santos – Editor de Mídia em Foco

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A mordaça imposta pelas empresas de comunicação

Muito se fala a respeito da interferência que blogs, Twitter e outras redes sociais têm causado sobre a grande imprensa. Seja trazendo à tona assuntos que são incorporados pela mídia em suas pautas, seja “furando” a própria mídia – cobrindo acontecimentos antes mesmo de os jornalistas chegarem ao local do fato. Na semana passada, a discussão sobre essa interferência causada pelas novas mídias começou a afetar diretamente os jornalistas empregados pelos maiores veículos de comunicação do Brasil.

Primeiro, a Folha de São Paulo anunciou algumas regras a serem seguidas por seus jornalistas e colunistas no uso de blogs e do Twitter. Depois foi a vez de a Rede Globo fazer o mesmo com seus artistas, jornalistas e outros profissionais da emissora.

O maior jornal do país recomenda que seus profissionais não assumam opiniões partidárias, apoio a candidatos e campanhas, muito menos que publiquem conteúdo exclusivo. Neste último caso, a saída seria divulgar o link do material exclusivo, que só poderia ser acessado, no site, por assinantes do jornal. A medida, até aqui, parece correta, afinal a credibilidade, tanto do jornalista quanto do veículo em que trabalha, poderia ficar abalada caso um repórter de política manifestasse, em seu blog, apoio descarado a um candidato e sua campanha.

O grande problema, acredito, é um jornalista que trabalha para a Folha não poder opinar sobre uma notícia que escreveu e já foi publicada. Será que depois de, teoricamente, ter ouvido todos os lados da história, apurado e checado as informações recebidas, o repórter não pode, em seu blog e Twitter pessoais, manifestar seu julgamento a respeito do que leu, viu, ouviu e escreveu?

A Rede Globo também passou a proibir a divulgação de informações, comentários e conteúdos obtidos em virtude do relacionamento do funcionário com a emissora. Só por meio de autorização formal será possível fazer isso. A hospedagem de blogs em portais ou outros sites que não os ligados às Organizações Globo também só poderá ocorrer desde que expressamente permitida pela empresa.

O comunicado diz ainda que “a presença individual e particular dos nossos contratados deve se restringir, se desejada, exatamente a este universo [o uso pessoal das redes sociais], estando totalmente desvinculada da atuação na Rede Globo, nem tampouco associados a outros veículos de comunicação. Se essa separação clara não puder ser estabelecida, o uso dessas mídias fica inviabilizado”.

Proteger conteúdos e preservar princípios e valores consolidados é o objetivo que move e continuará a mover essas e outras empresas de comunicação, conforme elas forem enxergando os perigos que as novas redes sociais poderão causar à sua imagem perante a concorrência. De fato, se um jornalista de um grupo anuncia com antecedência algum conteúdo que produziu, a concorrência não vai pensar duas vezes antes de buscar nova abordagem para o mesmo assunto, prejudicando o trabalho do outro grupo antes que este tenha publicado o material.

E você, jornalista ou não, o que pensa sobre as atitudes tomadas pela Folha de São Paulo e pela Rede Globo quanto ao uso das redes sociais pelos seus empregados? Se trabalhasse para alguma dessas empresas, você se enquadraria facilmente nas novas exigências dos seus patrões?

Mateus dos Santos – Editor de Mídia em Foco

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O mundo não para de girar

Há dois dias, o Brasil pôde perceber diferenças visuais importantes no Jornal Nacional, da Rede Globo. Depois de nove anos mantendo o mesmo cenário e a mesma bancada, estreou nesta segunda-feira o novo modelo do telejornal, prometido em abril, mês em que a programação da Globo para cada ano é divulgada.

O que mais chama a atenção nesta nova fase do JN, este senhor que acaba de completar 40 anos, é sem dúvida alguma o já tradicional globo “pendurado” sobre a redação da emissora no Rio de Janeiro. Agora ele está mais moderno e fica girando durante todo o telejornal. William Bonner disse, na estreia do novo cenário, que “a Terra não para de girar, o tempo não para”. O Jornal Nacional, ao “descobrir” isso, incorporou essa novidade à sua redação, que conta também com nova bancada e novos computadores para os apresentadores do noticiário.

No fundo da redação, onde antes apareciam várias telas de TVs, o espaço recebeu agora um telão, no qual aparecem imagens referentes a alguns assuntos e países tratados pelo JN, como saúde e Estados Unidos.

Outro globo, dessa vez criado por meio de computação gráfica, aparece toda vez que uma reportagem de um correspondente no exterior vai ao ar. Aparece o mapa do Brasil, a partir de onde o globo gira e o zoom “desce” até a cidade onde o repórter está, mostrando uma fotografia de satélite do local. Quando o repórter aparece, ao lado de seu nome e da cidade em que se encontra também há um pequeno globo que fica girando.

Movimento. Esta é a palavra que para mim melhor representa as mudanças que a Globo vem trazendo à sua grade de programação jornalística. No Globo Esporte e no Jornal da Globo, os apresentadores agora ficam também em pé durante os programas. Embora o conteúdo não traga mudanças significativas para o público, como as esperadas por João, nosso personagem de três semanas atrás, nossos olhos ao menos se encantam com os “ares de modernidade” assumidos aos poucos pelos telejornais que acompanhamos.

Mateus dos Santos – Editor de Mídia em Foco

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Rádio, xodó de muita gente

“Nosso helicóptero sobrevoa, neste momento, a Marginal Pinheiros. Para você que segue no sentido norte-sul, um acidente envolvendo dois carros e um caminhão no início da manhã ainda traz lentidão no quilômetro…”.

“O vídeo divulgado pela polícia mostra o momento em que o cativeiro usado pelos sequestradores foi encontrado. A porta da casa onde as vítimas eram feitas reféns pelos bandidos foi arrombada pelos policiais…”.

“Vamos saber como fica o tempo para a tarde de hoje, meu amigo, minha amiga ouvinte. Aqui em nossos estúdios, faz vinte graus agora, mas a previsão é a de que a temperatura vai cair bastante neste final de semana. Nada como um friozinho nesse dia dos namorados…”.

Crédito: Ian Hayhurst/Flickr

Crédito: Ian Hayhurst/Flickr

Ah, o rádio! Uma dos adjetivos mais falados por fãs desse importante veículo de comunicação para caracterizá-lo talvez seja “companheiro”. Nas rádios cujo sinal só ultrapassa os limites do município em que ela se encontra para atingir as cidades vizinhas, não é difícil escutar seus locutores saudando ouvintes que estão no trabalho ou a caminho dele, donas-de-casa que preparam o almoço da família, idosos reunidos na praça para jogar baralho, reclamar do governo e contar histórias do passado. Os ouvintes têm nome, profissão e bairro onde moram – tudo isso anunciado pelo apresentador do programa.

Para os integrantes do projeto Sem Fronteiras, todos nascidos numa era em que as imagens já haviam superado o simples relato de um acontecimento, seja ele escrito ou falado, seria muito estranho – imagine! – ficar sabendo de tudo o que rola no mundo sem ter acesso às imagens dessas ocorrências. Embora algumas escassas fotografias e cinejornais acabassem chegando até nós, isso demorava semanas, meses para suceder.

Só havia duas opções mais “imediatas” para se informar: o jornal, que ainda não trazia fotos, e o rádio, no qual a informação poderia ser dada mais rapidamente. Mesmo assim, nada como, atualmente, ficar sabendo da explosão de um carro-bomba no Iraque cinco minutos depois do fato. Hoje sim, estando ou não no local do acontecimento, a equipe de uma emissora de radiodifusão tem como passar a informação em tempo real.

Antes de dormir, já deitado na cama, gosto de ficar ouvindo música no meu rádio-relógio durante alguns minutos. Outros gostam de acordar e, ainda de olhos fechados e com muita preguiça, acompanhar as primeiras notícias do dia em seu aparelho portátil.

Vários substitutos ao rádio tradicional foram surgindo – aparelho de som, CD player, MP3, MP4 etc. Depois da TV digital, uma das próximas inovações será o rádio digital. Além de melhor qualidade sonora do conteúdo transmitido e maior variedade na programação, já se projetam aparelhos com acesso à internet e às imagens do estúdio a partir do qual a transmissão está sendo feita.

Todas essas novidades só virão a colaborar para que o rádio se mantenha firme e forte na era digital. Portabilidade e linguagem que individualiza o ouvinte continuarão sendo os maiores pontos positivos para que o xodó de muita gente continue a ser considerado um grande “companheiro” do dia-a-dia de seus fãs.

Mateus dos Santos – Editor de Mídia em Foco

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Nem bispado paulista nem plim-plim carioca

Acho cada vez mais incrível como a grande mídia consegue, de modo tão fácil, mudar rapidamente seu roteiro de assuntos. É da água para o vinho, como se diz popularmente. O que há duas semanas era noticiado como extremamente importante à população deixa o papel de protagonista para se tornar mero figurante, nesse teatro de holofotes que iluminam personagens e histórias com pouco ou nenhum sentido para muitos dos espectadores da plateia.

No episódio da semana passada, Globo e Record focalizaram, em seus telejornais, o bispo Edir Macedo e a maior de suas empresas, a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus). Foi de impressionar o tempo de duração das reportagens da Rede Globo acusando Edir Macedo e, em contrapartida, também o longo espaço dedicado pela Rede Record à ‘defesa’ dele – mais contra-ataque do que defesa.

Quando, em outras ocasiões que não a briga pela audiência (para manter ou conquistar a liderança), assistiríamos a uma reportagem que durasse 10 minutos ininterruptos? Quando veríamos um programa dominical noturno contando a história da emissora adversária, com a proposta de revelar as ditas “ligações perigosas” existentes entre os donos da TV inimiga e o período ditatorial no Brasil? Ou ainda reportagens televisivas inteiras baseadas apenas em citações de grandes jornais e revistas do país, não fazendo nada além de repercutir o trabalho da mídia impressa?

Não há dúvida de que os meios de comunicação de massa estejam realmente mudando neste ‘ainda’ início de século. Se a tal mudança será para melhor ou pior eu não sei. Tenho apenas a certeza de que muitas máscaras estão pouco a pouco caindo, já que parece não haver mais qualquer receio ou restrição em recorrer à metalinguagem – um telejornal falando do trabalho da outra emissora – para trazer à tona os ‘podres’ alheios.

No fim das contas, quem sai ganhando com toda essa lambança é o espectador que dispõe de outros meios de informação – caso nenhuma das versões apresentadas o agrade e ele queira se informar sobre o que, de fato, mexe com sua vida. A discussão sobre esse tema continua lá no blog do Alex Lirio, um dos nossos colunistas de Educação.

Mateus dos Santos – Editor de Mídia em Foco

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Um brasileiro refém da mesmice

Pense num trabalhador brasileiro que vive na periferia de uma grande metrópole. Seu nome pode ser João, a cidade pode ser São Paulo. Ele sai de casa antes do amanhecer e volta somente ao anoitecer. Das mais de 12 horas que passa fora de casa, são cerca de duas para ir e mais duas para voltar do trabalho.

Parte do caminho ele faz a pé, depois pega um ônibus, o metrô e outro ônibus para chegar à fábrica em que trabalha. À noite, quando volta para casa, João, muito cansado, precisa dar atenção à mulher e aos filhos, além de acompanhar o noticiário da TV para se informar sobre os acontecimentos do dia.

O cansaço de João ultrapassa o físico. Ele já não aguenta mais ver sempre as mesmas notícias sobre assuntos muito distantes do seu dia-a-dia. Seu salário não lhe permite ter acesso a uma programação por assinatura que lhe dê opções variadas de conteúdo. Assim, João só conta com a grade de programas da TV aberta brasileira, a cada dia mais desanimadora.

Não adianta um controle remoto cheio de botões se a programação dos canais de TV anda tão ruim. Crédito: Marquinhos/Flickr
Não adianta um controle remoto cheio de botões se a programação dos canais de TV anda tão ruim. Crédito: Marquinhos/Flickr

Aos domingos, quando João pode ficar em casa o dia todo, ele costuma ir até a banca para comprar um jornal e poder ler algumas das notícias que durante a semana consegue apenas ver pela TV. O jornal é um daqueles chamados “populares”, ou “popularescos”, que atraem especialmente o público das classes sociais mais baixas devido ao preço – menor em relação aos outros.

O destaque que o jornal dá ao futebol é o principal atrativo que leva João a comprá-lo. Mesmo assim, ele continua convivendo, ao ler essa publicação, com temas ainda muito abaixo dos que ele gostaria de encontrar. A narrativa nua e crua dos acontecimentos policiais o faz lembrar, agora sim, de fatos bem próximos do seu cotidiano: a falta de segurança pública, o descaso dos governantes com a periferia e o crescimento da violência em bairros como o bairro em que ele mora.

O bom e velho jornal já não satisfaz mais os anseios de seus leitores pelas informações. Crédito: Claudia Castro/Flickr

O bom e velho jornal já não satisfaz mais os anseios de seus leitores pelas informações. Crédito: Claudia Castro/Flickr

Se as condições financeiras de João fossem mais favoráveis, ele compraria um computador. Com a “tal da internet” – assim ele costuma dizer –, poderia buscar informações muito mais abrangentes, como reportagens que vão além de apontar e denunciar problemas.

Na visão da nossa personagem, falta à mídia promover debates esclarecedores e que sugiram soluções, a respeito de assuntos que verdadeiramente interessam ao povo, mostrando às pessoas os melhores caminhos a seguir. Afinal, o acesso da população pobre às produções consideradas “de alto nível” é extremamente limitado.

Através da internet, João poderia conhecer o blog da Revista Sem Fronteiras e, mais adiante, também a Revista Sem Fronteiras. Aqui, ele encontraria ao menos uma parte do que acredita ser importante para a própria vida.

Na editoria de Mídia em Foco, o leitor vai encontrar reflexões e críticas a indagações como as que a nossa personagem João faz em relação a como é e como deveria ser o trabalho da mídia. Tudo para que o público obtenha – além de simples relato de fatos – educação e conhecimento. Aguarde!

Mateus dos Santos – Editor de Mídia em Foco

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